01
nov
09

João e Raimundo 02

EXT. QUIOSQUE – DIA

João está de pé, em uma rua movimentada, em frente a um quiosque de aparência suja. Dá uma mordida em uma coxinha. Coloca catchup em cima da coxinha. Um homem que passa correndo esbarra em João, derrubando a coxinha e sujando a camisa de João de catchup.

JOÃO
Puta que o pariu.

João pega um guardanapo vagabundo e tenta limpar o catchup da camisa, mas só consegue espalhá-lo ainda mais.

JOÃO
O que falta acontecer hoje?

EXT. SAÍDA DO ESCRITÓRIO DE MARCONDES – DIA

João está de pé parado ao lado de um carro de polícia. Policiais trazem Marcondes, na casa dos 50 anos, bem vestido, cabelo arrumado com gel, algemado. Ao cruzar com João, Marcondes, com cara de poucos amigos, vê a camisa suja.

MARCONDES
É assim que você vem trabalhar? Matou alguém no caminho? Tá demitido, garoto.

Os policiais colocam Marcondes dentro do carro da polícia. João olha para a camisa. Lambe um dedo e tenta limpar a mancha de catchup.

EXT. CALÇADÃO DA PRAIA – ENTARDECER

JOÃO
Parece que ele matou a mulher.

Raimundo fotografa pessoas que passam.

RAIMUNDO
E aí?

JOÃO
Me fodi, né? Vou trabalhar pra quem?

RAIMUNDO
Não, porra. Como é que o Marcondes matou a mulher?

JOÃO
Acho que foi tiro.

RAIMUNDO
Acha?

JOÃO
É o que um cara lá me falou. Eu não tava lá pra saber.

RAIMUNDO
Sorte sua. Com essa camisa cheia de sangue, iam te levar como suspeito.

JOÃO
É catchup.

26
out
09

Panfleto 01

Curso Básico de Introdução e Iniciação para Novatos em Jogos de Tabuleiro

O curso, em seu primeiro módulo, subdivide-se em duas modalidades, as quais igualmente são subdivididas em tópicos. O objetivo é permitir que, concluído o curso, um sujeito que nunca tivesse jogado anteriormente uma partida de tabuleiro reúna condições de participar de uma eleição para síndico de condomínio sem que tenha de se perguntar a cada instante acerca das informações climáticas da região em que se localiza o tal condomínio. Ele deverá possuir destreza suficiente para equilibrar um ovo em uma colher e competir contra um cachorro – contanto que não seja um dálmata – nesta modalidade extremamente exigente em termos de perícia intelectual, moral e afetiva. É, no entanto, pré-requisito para a realização do curso que o aluno jamais tenha coado café em meias azuis. Dizem a moda e os bons costumes que as mais indicadas à execução de tal tarefa seriam naturalmente as de tons pastéis, excetuando-se, é claro, o mês de novembro, quando se deverá utilizar meias de lã de carneiro. No nível intermediário do curso serão ministradas aulas acerca dos jogos de Banco Imobiliário e Roleta. No Avançado, serão contemplados Jogo da Velha e Jumanji.

1) War

Este célebre jogo nos mostra muito mais sobre o caráter de um homem do que uma partida de bocha. Participantes que insistem em atacar utilizando-se dos dados amarelos demonstram clara tendência à psicopatia e ao suicídio. A maneira como as peças são agrupadas também é bastante relevante no que tange à capacidade militar do indivíduo. Basicamente, se o jogador não dispuser suas peças em pelotões de infantaria, um ataque de sucesso será obviamente mero fruto da sorte. Os que utilizam exércitos vermelhos são, na maioria dos casos, degenerados sociais.

A- Sobre a utilização de Madagascar como ponte para a conquista da Oceania

Os mais inexperientes hão de atentar para o fato de Madagascar situar-se na África. Trata-se, no entanto, de compreensível ingenuidade e desconhecimento dos estratagemas empreendidos neste jogo de rara simulação das situações de guerra. O primeiro a utilizar tal tática foi Lorde Floydweather de Birminghamshire, nos idos do século XIV. Profundo conhecedor da teoria militar, desenvolveu seu inovador método de consquista baseado em uma experiência bem-sucedida ainda em sua tenra infância. Certa noite, quando não havia ainda completado dez anos de idade, pediu a seu pai para ficar acordado até mais tarde, em virtude da exibição do capítulo final de sua novela preferida. Seu pai muito bem lembrou-lhe de que a Quarta-Feira de Cinzas sempre cai em uma quarta-feira. Diante de irrefutável argumento, Lord Floydweather de Birminghamshire, na época ainda o pequeno Floyd, ou Floflo, como gostava de lhe chamar sua avó materna, dirigiu-se a seu quarto para dormir, mas esqueceu de escovar os dentes. Quando acordou no dia seguinte, apresentava um bafo difícil de agüentar. Seu pai, então, cortou sua mesada e não permitiu que ele fosse ao cinema durante um mês.

B- Sobre a ilha de Fernando de Noronha não estar representada no tabuleiro

Não se trata de patriotismo barato. Existe uma explicação para tal ausência. O jogo de War é uma derivação de um milenar jogo de cartas praticado no Japão cerca de oito séculos antes de Cristo. Como a Bíblia não relata em momento algum a passagem de Jesus Cristo pelo Japão, está explicado porque não haja indícios de que esse jogo de cartas já tenha sido praticado no Japão. Como os criadores do jogo de War não possuiam uma bola de cristal ou um DeLorean, não poderiam afirmar em que data Jesus Cristo chegaria ao Japão. Ao serem informados da dolorosa notícia de sua morte, perderam as esperanças de que algum dia o grande Messias pudesse realmente passar pela famosa ilha oriental. Não podendo precisar o período exato em que Jesus passaria pelo Japão, não puderam determinar quando teria sido oito séculos antes, apesar de sua notável capacidade no que diz respeito às questões matemáticas. Mais do que isso, se Jesus só fosse passar por lá mais de oito séculos depois, o tal jogo de cartas ainda não teria começado a ser praticado, de maneira que o jogo de War não poderia existir. Por isso, resolveram excluir a ilha de Fernando de Noronha do mapa.

C- Sobre quem foi Vladivostok

Conta a lenda que, à altura da Terceira Grande Guerra entre os rapazes da Rua Cinco e os da Avenida Dois, no centro de Praga, o estilingue foi utilizado pela primeira vez como meio de comunicação. Era uma terça-feira cinzenta do mês de setembro de 1254 e os rapazes da Rua Cinco estavam em clara desvantagem numérica. A batalha se desenrolava à maneira dos otomanos até que o pequeno Pavel VIII chamou seu irmão mais velho, Pavel VII, para jantar. Pavel VII, o principal general da artilharia da Rua Cinco, rogou-lhe uma praga – com o perdão do trocadilho – e afirmou que não poderia abandonar seus homens em meio à ação. Pavel VIII afirmou não ter compreendido as palavras do irmão, ao que lhe foi atirado um estilingue na cabeça. A mensagem foi perfeitamente compreendida e Pavel VIII voltou para casa sozinho. Talvez não fosse uma terça, mas uma quinta-feira. Vladivostok era o nome do cachorro do presidente Roosevelt. Só não se sabe se Theodore ou Franklin.

2) Detetive

Está aí mais um jogo que muito pode nos ensinar sobre a sociologia e a antropolgia. Darwin diria que um jogo de tabuleiro pode evoluir através de cruzamentos, ao que deveríamos acrescentar o fato de que o que melhor poderia atestar essa tese seria o de Palavras Cruzadas. Durante o filme “007 em busca da Atlântida”, pode-se perceber, em uma das seqüências, que um dos personagens coadjuvantes faz clara alusão ao Coronel Mostarda quando informa o agente secreto de que os russos já partiram de Moscou. Possivelmente estavam munidos de castiçais, prontos a assassinar James Bond na Sala de Estar.

A- Sobre o Escritório possuir uma passagem secreta para a Cozinha

Como já se sabe, o Sr. Marinho foi inspirado no mordomo da casa de veraneio de Napoleão Bonaparte. O sobrenome Marinho logicamente é fictício, devido a uma tentativa infrutífera de proteger sua verdadeira identidade. Na verdade, ele se chamava Monsieur Bleu. Estudou no Colégio Notre Dame, em Paris, e gostava de jogar críquete. No entanto, os caminhos sinuosos da vida o levaram a servir na casa do ditador francês. Apesar de sangüinário com os inimigos, Napoleão era bastante cortês com seus empregados, que, na verdade, resumiam-se a apenas um. Monsieur Bleu acumulava também as funções de porteiro, cozinheiro, faxineiro e limpador de chaminés. Como havia uma lareira no Escritório, eventualmente Monsieur Bleu precisava limpá-la. Para não deixar que o bolo de cenoura que Bonaparte adorava queimasse no forno, Monsieur Bleu decidiu criar uma passagem secreta entre o Escritório e a Cozinha.

B- Sobre a astúcia de se cometer um assassinato no Salão de Festas

O Salão de Festas é, naturalmente, o local mais freqüentado de todo o tabuleiro. Dona Violeta e Dona Branca freqüentemente lá realizam reuniões sociais do Clube das Senhoras de Chesterville. Em geral, não há mais do que alguns biscoitos e um bule de chá entremeados por conversas acerca dos melhores tons de azul e laranja para tintura de cabelo ou as maneiras de atravancar uma calçada simulando uma conversa entre quatro ou mais senhoras de bengala. Entretanto, vez ou outra, ocorre algum assassinato. Segundo as estatísticas, nunca foi realizado lá um assassinato com a Chave Inglesa. As duas senhoras, apesar da aparência frágil, possuem vastos conhecimentos de artes marciais, dominando as técnicas da chave de braço e da chave de perna.

C- Sobre a dificuldade do Professor Black em entrar na Sala de Música

Há correntes divergentes sobre este tópico. Há quem diga que se trata de uma mentira. Professor Black não teria dificuldade alguma em entrar na Sala de Música, apenas não teria interesse em ir até lá por não saber tocar piano. Há, porém, quem enxergue maiores desdobramentos sobre o tema. Os relatos contam que ele foi visto por lá pela última vez em 1789. Na ocasião, a televisão de seu quarto estava quebrada e, para assistir à transmissão ao vivo da Revolução Francesa, se dirigiu ao aposento mais próximo. No entanto, desde que sua televisão foi consertada, não mais foi à Sala de Música. Há ainda uma terceira corrente, que, no entanto, não será abordada no curso.

21
out
09

Música 01

Sai de casa às nove da manhã. São quatro minutos a pé até a estação de trem. Dois de espera. Suficiente para comprar o jornal. Uma libra. Dezessete minutos de viagem. Três a pé até o escritório. Bom dia à secretária. Tempo exato para o café, que ainda está quente. Planilhas, contas, relatórios e telefonemas até meio-dia e meia. Almoço no restaurante a duas quadras de distância. Terno alinhado, cabelo bem cortado, último modelo de celular. Couve-de-bruxelas, brócolis, pimentão, frango grelhado. Água mineral. Sem sobremesa. Boa tarde à secretária. Planilhas, contas, relatórios e telefonemas até as cinco horas. Cinco mil libras por mês. Até amanhã à secretária. Três minutos até a estação. Dezessete de viagem. Mais quatro a pé até em casa. A vizinha rega as plantas. Mas sua mãe não aprovaria.

Todos os dias.

No dia em que o pai morreu, não conseguiu esconder um leve sorriso no canto da boca.

20
out
09

A velhinha do táxi

Ramiro já se preparava para encerrar seu dia de trabalho. Avistou uma senhora que pedia carona. Tinha algumas sacolas aos pés. Decidiu-se a fazer uma última corrida. Algo como um ato de caridade. A boa ação do dia. Ramiro gostava de conversar com velhinhas. Transmitiam uma certa paz de espírito.

Não demorou muito para Ramiro aperceber-se de que naquela senhora havia algo mais do que cabelos roxos e um vestido com estampa de cortina. Logo após indicar o endereço, ela disparou a inesperada pergunta:

- O que achou do gol do Obina ontem?

Ramiro demorou dois segundos matutando. Não tinha certeza se havia entendido a pergunta corretamente. Mais dois segundos para lembrar-se do gol de Obina. Tentou ponderar com a velhinha. Um gol de pênalti não era mais do que um gol de pênalti. Aparentemente ela se ofendeu. Não disse mais uma palavra até chegar ao seu destino.

Lá chegando, pediu a Ramiro que a ajudasse a levar as sacolas. Seu prédio não tinha elevador. Morava no terceiro andar. Os 83 anos de vida não permitiam mais as estripulias de outros tempos. Ramiro prontamente saltou de seu já combalido Santana Quantum para ajudá-la. Não era propriamente um cavalheiro, mas nutria respeito por mulheres e idosos. Estranhou haverem apenas garrafas de uísque nas três sacolas. Preferiu não comentar.

Levou as sacolas até a porta da senhora, que remexeu os dois bolsos de seu vestido. Dezoito reais. Não encontrou. Pediu que Ramiro esperasse alguns instantes enquanto ela buscava o dinheiro.

Passaram-se alguns minutos. Ramiro estava aflito. Sua esposa provavelmente a essa altura já preparava o jantar. Qual não foi a surpresa de Ramiro quando, em lugar da velha, apareceu um homem de vestido. Robin Williams.

Contou-lhe que gostava mesmo de vestir-se como senhora. Parte das esquizofrenias de um ator. “Uma babá quase perfeita” era, na verdade, um documentário. O estúdio que o produziu preferiu lançá-lo como filme de ficção. Achou que o público entenderia melhor.

Robin estendeu a Ramiro uma nota de 50 mil cruzados.

- Pode ficar com o troco.

Ramiro achou prudente simplesmente aceitar. E diria à mulher que havia se atrasado no bar com os amigos.

18
out
09

Vida

Um apito.

Mundico nasceu Raimundo José Aparecido Moreira, filho mais velho de três irmãos, todos homens, teve uma infância tranquila, sem muito, mas também nunca lhe faltou nada, ganhou seu primeiro triciclo e começou a chutar bola, viu nascerem os irmãos e, é claro, viveu de brigas e bons momentos, aprendeu a ler e escrever, foi o avô que o ensinou, dizia que criança tem que ser esperta desde cedo, ganhou uma merendeira do Cascão, que rendia muita gozação dos coleguinhas, que diziam que ele não tomava banho, pulou muro, pra pegar bola que caiu no terreno do vizinho e roubar manga, deu o primeiro beijo em uma colega de turma, em um hotel fazenda, era um passeio da escola, repetiu a sexta série, tomou surra de cinto do pai, mas foi a cara de desapontamento da mãe que lhe deu o choro mais doído, em uma roda que samba conheceu Renatinha, fez primeira comunhão, perdeu um amigo por bala perdida, outro foi morar na Bolívia, o pai era empreiteiro, assim se desfazia o trio que levou à loucura os inspetores do colégio e os seguranças do bairro e os vizinhos, leu alguns livros, não mais do que uma dúzia, comprou seu primeiro celular com o dinheiro da mesada que economizou por quatro meses, nesse tempo só saiu pra gastar dinheiro uma vez pra levar Renatinha ao cinema, um filme romântico que ela queria porque queria ver e ele preocupado em gastar o dinheiro que tava economizando pra comprar o sonhado celular, não era último modelo, mas tinha toque personalizado e ele já pensava nas músicas que ia escolher pra quando cada pessoa telefonasse, Renatinha engravidou, outra surra de cinto, mas a pior surra foi quando ele viu o moleque, a ficha caiu e ele ficou com um medo maior do que o mundo, mais medroso que o filho que berrava pra dez quarteirões de distância, não largou o colégio, que a mãe não ia deixar, arrumou um trabalho no McDonald’s, o dinheiro não era suficiente, mas pelo menos mostrava a todo mundo que tava tentando fazer as coisas darem certo, no fim de semana fazia alguns bicos de vez em quando, mas queria mesmo era ser jogador de futebol, pra jogar no Maracanã e correr pra torcida, tanto fazia qual, porque o time dele tinha uma torcida pequena e nunca ia lotar o Maracanã e ele queria mesmo era uma torcida que lotasse o Maracanã, jogava umas peladas às vezes, quando conseguia escapar da rígida marcação da Renatinha, o melhor zagueiro que ele já enfrentou na vida, porque ela queria um homem direito e decente e homem direito e decente não fica vadiando por aí jogando futebol com bola velha em terreno baldio enquanto o filho chora de fome e de cólica e de sono e de manha em casa e a mulher tem vontade de chorar de desespero porque o filho chora de fome e de cólica e de sono e de manha em casa, mas Mundico sabia que um dia o seu destino era ser campeão no Maracanã e jogar com a camisa amarela da seleção brasileira, porque a azul era bonita, mas a amarela é que era a tradicional e se ele fosse chamado pra jogar na seleção e tivesse que usar a camisa azul, não é que não fosse valer a pena, mas ele ia ficar um tanto desapontado, mas o filho chorava de fome e de cólica e de sono e de manha em casa e ele não era um pai desnaturado, era um homem direito e decente e só jogava no máximo uma hora e não saía pra beber com o pessoal, que aí também já seria provocação com a Renatinha, terminou o colégio, não fez faculdade, porque nunca quis e não seria agora como um pai de família que ele ia querer, queria mesmo era ser jogador de futebol, pra jogar no Maracanã e correr pra torcida, disso ele tinha certeza, mas a vida é complicada e ele arrumou um emprego de gerente numa loja de tecidos, o dono era amigo do pai empreiteiro do amigo que tinha ido morar na Bolívia e agora tinha voltado pro Brasil, tava cursando a faculdade, Ciências Sociais na UFRJ, o amigo era inteligente e gente boa e deu uma força pro Mundico porque ele tava precisando e o Mundico não ia desapontar o amigo e chegava sempre cedo na loja e era o último a sair e o patrão tava satisfeito, finalmente tava ganhando dinheiro pra sustentar a mulher e o filho, e olha que a fralda é cara e o moleque caga que é uma beleza, só chora e caga e come, mas quando sorri é um sorriso que vale mais que o mundo, porque o Mundico já não tem mais tanto medo e ele sabe que, de um jeito ou de outro, as coisas sempre se arrumam, mesmo que ele queira mesmo é ser jogador de futebol, pra jogar no Maracanã e correr pra torcida, mas enquanto não chegava esse dia ele sonhava e queria pelo menos ganhar o campeonato do bairro e a partida foi pros pênaltis e todo mundo confiava nele que era o camisa 10 e grande craque do time e agora ele tinha a grande chance de mostrar que um dia ia mesmo ser campeão no Maracanã e jogar com a camisa amarela da seleção brasileira, porque a azul era bonita, mas a amarela é que era a tradicional.

Pra fora.

17
out
09

Uma carta

Quanto já não se passou desde a última vez em que te vi. Tanto tempo se foi que já nem mais me permito sonhar, mesmo que somente em despedida, tocar-te as belas, lânguidas mãos, de tez tão branca como a neve. Amo-te como jamais amarei outra mulher em sete vidas, mas as barreiras que se nos impõem são intransponíveis. Falta-me a coragem para fazer tombar o mundo e proferir as palavras que mereces. Porém, não lhas digo, pois me impede minha fraqueza, toma-me de assalto um congelamento que atravessa-me a alma. A chuva que lá fora derruba árvores certamente inveja a força das tormentas que se abatem sobre meu coração. Quisera eu estar ao teu lado, mas sei que devo partir, partir de ti, não resta-me escolha. Sei que quando receberes esta carta já estarei longe, a bordo do navio que me porta de volta à capital, um regresso que não planejava, mas que faz-se absolutamente necessário. Nada mais haverá, então, a ser feito, quando leres esta carta. De fato, a carruagem já me espera à porta. Talvez devesse tê-la enviado um recado pelo Twitter, que não se demoraria tanto, dispensa a lentidão do mensageiro. Apenas doze dúzias de caracteres são-me, contudo, insuficientes para narrar-te minha dor.

16
out
09

João e Raimundo 01

INT. APARTAMENTO DE JOÃO E RAIMUNDO – NOITE

 

Em cima de um beliche, João, 27 anos, de pijama, lê um livro de matemática. A luz não é muito forte. À sua volta, há cadernos e papéis com anotações. João coloca o livro e os óculos de leitura sobre a cama e pula para o chão. O apartamento é pequeno. No quarto, além da cama, há apenas um armário e um móvel com uma televisão de 14 polegadas. João se dirige à cozinha, contígua, onde há uma pequena mesa com três cadeiras, um frigobar e um armário. João pega da pia, entre a louça suja, um copo. O analisa contra a luz e enche de água da torneira. Bebe tudo de uma golada. Põe o copo de volta na pia. Vai ao banheiro. Faz xixi de porta aberta. Não lava as mãos. Sai do banheiro esfregando as mãos na camisa. Sobe na cama. Procura os óculos. Levanta o livro, os papéis. Levanta-se, bate com a cabeça no teto. Finalmente acha os óculos, sobre os quais havia se sentado. Senta-se. Coloca os óculos. Coça a cabeça. Olha a mão para conferir se não há nenhum sangramento. Pega o livro. Está de cabeça para baixo. O desvira. Ouve-se um barulho de porta. João se vira. Entra Raimundo, aproximadamente a mesma idade de João, vestido com calça e camisa social.

 

RAIMUNDO

Ainda tá aí, porra? Levanta daí que a gente vai numa festa.

 

JOÃO

Que festa? Tá doido?

 

RAIMUNDO

Rapaz, conheci duas suecas hoje que tu não vai acreditar. Sem chance de melar dessa vez.

 

JOÃO

Tá doido?

 

RAIMUNDO

Rapaz, não adianta mais estudar. Agora tu tem é que relaxar.

 

JOÃO

Tá doido mesmo.

 

RAIMUNDO

Vamos, mané. Tira esse pijaminha que tua mãe te deu no Natal.

 

Raimundo se aproxima da cama. Aponta as duas mãos para João.

 

RAIMUNDO

Rapaz, hoje tu vai se dar bem. Tira a porra do pijama.

 

Raimundo começa a recolher os papéis e cadernos de João.

 

JOÃO

Eu mereço.

 

João tira os óculos e desce da cama. Anda na direção do armário.

 

RAIMUNDO

João.

 

João se vira.

 

RAIMUNDO

Duas suecas.

 

 

INT. APARTAMENTO DE JOÃO E RAIMUNDO – NOITE

 

João está deitado na cama de barriga para cima. As luzes estão apagadas. A cama começa a balançar levemente. João abre os olhos. Ouve-se um gemido feminino. A cama balança mais rápido. Os gemidos se repetem. João arregala os olhos. A cama pára de balançar. Ouve-se um gemido mais longo. João vira-se para a parede.

 

 

INT. APARTAMENTO DE JOÃO E RAIMUNDO – DIA

 

João se vira na cama. Abre os olhos. Olha para o relógio apoiado na janela.

 

JOÃO

Puta que o pariu.

 

João pula da cama. Coloca a mão na cabeça, como se estivesse doendo. Na parte de baixo do beliche, Raimundo, deitado com as duas suecas, acorda. Coloca o dedo na frente da boca pedindo silêncio a João.

 

RAIMUNDO

(sussurrando) Vai acordar as duas.

16
out
09

Labirinto

SEQUÊNCIA 01

Um rapaz e uma garota deitados no chão do quarto dele. Toca uma música ao fundo.

RAPAZ: Você já parou pra pensar no quanto cada coisa que você faz muda completamente a sua vida?
GAROTA: As pessoas fazem escolhas.
RAPAZ: Até fazem. Mas não são só as escolhas importantes que mudam a sua vida. Não são só as suas escolhas. O acaso é muito mais importante do que qualquer escolha que você possa fazer.
GAROTA: Eu acho que cada um corre atrás do que quer.
RAPAZ: Eu não tô dizendo que a gente deva ficar parado. Também acho que correr atrás ajuda, tem uma influência muito grande. Mas tem tanto à nossa volta. Não dá pra controlar nada. Não dá pra saber o que você vai querer amanhã. Isso depende muito mais das decisões dos outros. As suas escolhas dizem muito mais sobre quem você é do que sobre o que você quer. Ninguém sabe o que vai encontrar na próxima esquina. O desejo muda rápido demais. Ninguém tem só uma estrada a tomar. Você pode escolher a melhor opção que te aparecer, mas não pode decidir sobre as opções que vai ter.
GAROTA: Mas se você souber procurar acaba achando as melhores opções. Não acho que a gente esteja jogado à sorte.
RAPAZ: É verdade. Se souber procurar, acaba achando as melhores opções. Mas ninguém sabe quais são essas opções até que elas apareçam. Ninguém procura por algo, todos procuram pelas melhores opções. E, dentre as incontáveis opções maravilhosas que você pode encontrar, é impossível prever qual vai estar na próxima esquina. Cada “bom dia” que você dá ou deixa de dar muda todo o futuro à sua volta. Se em vez do sorvete de morango, você tivesse escolhido o de chocolate, tudo seria diferente. Talvez você tivesse demorado alguns segundos a mais para tomá-lo. Com isso, não teria atravessado o sinal a tempo, então teria que esperar mais alguns minutos. Cruzaria com pessoas diferentes. E isso muda completamente o seu dia. Muda o seu humor. Muda a maneira como você se relaciona com os outros. E eles mudam os seus próprios mundos e assim por diante, como um dominó. A vida é um grande labirinto. Mesmo se você for pensar nas coisas mais banais. Se fosse pensar, por exemplo, por que cargas d’água você está aqui e não na China.
GAROTA: Estou aqui porque estou de férias e você me disse pra passar aqui.
RAPAZ: E por que está de férias?
GAROTA: Porque o meu chefe decidiu que vai viajar no mês que vem com a família, então eu tinha que tirar férias agora, pra tomar conta da loja depois.
RAPAZ: E por que ele é seu chefe?
GAROTA: Porque ele me deu aula na faculdade e acabou me chamando pra trabalhar.
RAPAZ: E por que você tava na faculdade?
GAROTA: Acabou o CD.
RAPAZ: Bota pra rodar de novo.

Close no aparelho de som. Zoom para o botão “Play”. Um dedo aperta o botão.




fevereiro 2010
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